quinta-feira

O retrato

Porto ao tornozelo a cadena
D’ouro
Pelo tempo
Que me guarda e me prende
E do retrato
Olhar fixo
Lágrimas de tinta
Dentes de chumbo
E de dia
Sobre o azul
Duas luas transladaram
Em faces distintas
Como o fraque
E da mão rolaram
Três patacas
Semeando o ferro
Da terra escura brotaram
As tribos
E a ela voltaram
E a árvore da vida
De cadena amarrada em mim
Balançou
E observou-me
“parteira dos sonhos”
E encarregou-se de me alforriar
Cuspiu fora as folhas
Comandou as raízes rejeitarem a água
E chamou a si o fogo do céu
Decorrendo no tempo
Renasceu como quadro surrealista
Com olhos, dentes e palavras
Foi ela que me viu presa
À cadena dourada
E da madeira dela me fizeram a moldura
Era eu o retrato

segunda-feira

A avó

Não me quero apegar
aop patromónio
ser propriedade
de bem algum.
quero mais os contares
de Maria Miguel
Maria Miguel é viriata,
é hermínia,
é avó.
não sente frio,
fica arreganhada,
arrepia caminho à braseira
come papas de carolo - tarde
senta-se no seu mocho - noite
alembra-se
de acartar os alguidares
à cabeça
sobre a rodilha
nas quelhas
como a palma da mão
e a ela bruxa alguma
lhe passaria a per...
os novelos
nem patêgo nem brugesso
Política? um grande bornal
Deus? um enorme garruço
e quando o sino dobrar
por ela estará
debaixo da terra.

Detesto, como, vomito

Desconfio
dos criadores de copos
sem pé
dos pés
altos
das cadeiras
sem pernas
do infinito
sem ponta nem cabeça
por onde se pegue
o tinto
que de vermelho vi
um antigo pintar
toda uma gama de cores
como um vendedor
de nós
dos dedos
farruscos
enchendo portuguesas
as bocas
castanhas
antes da batatas, antes das crises
como na primeira infância
como castanhas
mas gosto-me
quando importo
os dados de alguém questionado
e o sexo não é M
e o sexo não é F
e o T
de tabela
não consome
a realidade
e o quadro não abarca
gosto quando não cinge
não se finge
quando é ordem é trans
gredida
detesto quando me
obriga
detesto como vomito

sábado

balança, libra, pound

A folha balança
Branca
sob o signo
Libra
o poeta pode, o poeta paga
Pound
[som de bala]
E a folha é acertada pelo disparo da caneta
por entre as ameias da mão
[temo que a memória da poesia seja um carimbo branco]
E planando até ao chão
fez-se a
[ela mesma]
Justiça
Caindo num borrão de tinta
onde se leu:
“A ideia de poesia não me basta”.

sexta-feira

O amigo

O teu nome
guardou em tempos
uma pequena letra
de mim
uma pequena música
cantada
adormecia-me as hostes
e os ouvidos
esses companheiros que ainda me seguram os óculos

terça-feira

A composição de retaguarda

"A composição é uma ideia que se rende
à decomposição,
por exemplo, analiticamente"
dizia Magritte
fumandoi o seu cachimbo
Sei que para citá-lo
nesta composição de retaguarda
teria que ressusciá-lo e
perguntar
"isso que fuma é poesia?"

O comboio

Um dia disseram-me:
"o que há é o que houve e há-de haver"
viveste antes, serás agora e depois
como os comboios
em longos e distantes carris
Pouca-terra, pouca-terra
à volta de uma coisa muito simples.
E redonda.

quinta-feira

O bailado

Cocórocócooorpo
Cocórocócooorpo


Corações ao alto!

O nosso coração está na música…

Corpo que tiraste o pecado

“Bailados os corpos nos enaltecem
Agora e para sempre, fossem, Assim”

Cocórocócoooreografia
Cocórocócoooreografia


Copos ao alto!

O nosso copo está na sincronia…

Sangue de Cristo

“Tomai e bebei, este é o sangue
Encenados sejais, Ode em Paz”.

quarta-feira

gesto

Só ao lado dum gesto sinfónico
Se encontra
A paisagem do bucólico
A paz-palha da devoção
Moça de peito na boca
Sentidos todos no coração
Os alguidares largos
Acartados
Seus braços turvos
E a monção
Pele aconchegada de seda
Actos
Laivos de consideração

sábado

Seria

Gostava de não saber ser
Sendo apenas o que não gosto
Fingindo estar bem
Porque nunca exposto
Estando por gostar
De quem apenas é
Somente por fingir
Não gostar de quem tem fé
Teria eu de me fazer perfeito
Sabendo que bem nem mal
Gostaria da imperfeição
Que só no efeito
dos actos
Póstumo
ao saber-se imperfeito
Estaria sem a minha acção
que deles desfeito
seria minha a composição

Muito ou pouco

Muitos são os que falam
com a propriedade de achar
Acham,os que acham muito,
ter a verdade de falar.
Muitos são os que guiam
com a propriedade de calhar
Calham, os que calham muito,
ter a verdade de guiar.
Muito são os que te avisam
com a propriedade de apontar
Apontam, os que apontam muito,
ter a verdade de te avisar.
Muitos são os que sopram
com a propriedade de agarrar
Agarram, os que agarram muito,
ter a verdade de te soprar.
Poucos são os que calam
com a propriedade de falar
Falam, os que calam tanto,
do sentido de expressar.
Poucos são os que perguntam
com a propriedade de encontrar
Encontram, os que perguntam tanto,
o sentido de caminhar.
Poucos são os que lembram
com a propriedade de recordar
Recordam, os que lembram tanto,
o sentido de continuar.
Poucos são os que te escutam
Com a propriedade de deixar
Deixam pouco, os que escutam tanto,
no sentido de te libertar.

terça-feira

No caminho de casa

Vinda em passadas largas
A minha casa se aproxima
Por essas ruas decalcadas
O verso não se lhe arrima
Indo de pé numa estrada
O vento correndo as faces
Ao longe a música de água
O morcego planando fases
E pousado no meu ombro
Se vira um conselho amigo
És agora livre para o tombo
Só os sapatos andam contigo
E a tua presença que dispara
O alarme forte de um radar
É a tua leveza que já te separa
O caminho do só caminhar
Chegando por fim a casa
O gafanhoto me saúda
Fazendo vénia com a asa
Tocando uma cigarra aguda
E os pássaros do meu beiral
Já não precisam de janelas
Voam entre as portas do sal
Tecendo as flores amarelas
E eu olhando lá para fora
Sabendo que posso chegar
Grito por aí que é agora
O tempo em que vai mudar
E olhando cá para dentro
Sabendo que hei-de chegar
Canto por aqui que é hora
A cama em me que vou deitar

quarta-feira

Ao amante

Com cheiro de mim nestas letras
Te beijo com as minhas palavras
Não temas a minha ausência
Que só ela manifesta a minha presença
E que esta não vai a lado algum
Que não seja ao teu encontro
Quando e onde seja possível
E que deste possível brota
A nossa coincidência, ela mesma
Tão coerente quanto seca,
E dela se emana a nossa diferença,
Tão presente quanto vibrante,
Como a sublimação do querer
A ideia de ti como a tua matéria
A identidade de nós, os amantes
Serei tua casa se o permitires
Tu, em mim, que já moras e habitas
Com desejo de ti nestas letras
Te tomo e te liberto nas palavras
Me mato e te nasço como Eu própria
Com a propriedade que só amar descreve.

terça-feira

Do outro

No lumiar da teias de fumo busco o som para que possa encontra-te distante robusto na casa dos Sete Pecados aonde nada se atém dizer, inquieto como um gato dando voltas no seu lugar a fim de encontrar a postura do seu descanso, deitada no meu jardim o sol carpindo as costelas ateias ou cristãs destes estendidos seres na contemplação, do nada perfeito e do tudo imperfeito, e ao fundo os sons grilados duma guitarra aborrecida com a vida e a fêmea que canta chorando uns olhos castanhos desse amor perdido e os pêlos em riste como se chorassem suores dum tempo ido mas pouco importa já falar quando o maldito foi suplantando na sua terra-mãe a fim de saber que tudo corre como um rio amarelo e a frescura dum verde brotado cosido nas plantas dos pés, arrematado com pontos de verniz vermelho, se percebe esticando a mão e encontrando as pontas dos teus dedos:

Não temas o medo de ser só
Se nós seus filhos, te acompanhamos
Não temas o desamor de ser dó
Se nós seus pais, te amamos
Não temas o frio de estar distante
Se nós seus avós, te escrevemos
Não temas o rancor de ser semelhante
Se nós seus netos, te devolvemos
Não temas o soro de ser querido
Se nós teus amigos, te buscamos
Não temas o ruído de ser menino
Se nós teus professores, te ensinamos
Não temas o sopro de ser esquecido
Se nós teus discípulos, te lembramos
Não temas o torpor de ser findo
Se nós os vivos, te continuamos
Não temas o medo de ser só
Que de medos sós padecemos.

sábado

Da dexteridade

A besta animal ela mesma bem enquadrada
Reconhece o seu código mas detesta-lhe o uso
Corre move corre sorve chora dó grita sai destrói
Escreve em grifo a fim de devorar o santo mais expedito
Urra as palavras montras do sujo debaixo da plateia dos ogros
Sabe a terracota, furaca-se no susto da espiral de horrores todos
Não dou, não pastas, não caminhas em vale de sombras para alcançares
Mal aproveitados no seu sentido Cão, estésico, hipocrático, sufistado
O meu feno é úmeno, o meu gene é húmido, o meu onte é meu
Não ónus não provo não desejo não experimento não concedo
Ele mesmo bem perdido como pérfido qual rio industrial
Porque eu macumbei a ousada estupidez altérica
Histérica dos aparelhos estereofónicos roídos
Sou destra, mas não reconheço a idade

Que o meu cora só a mim a me pertence, não reconheço legitimidade ao oponente, eu sou o Gine e o pilar em seio das minhas próprias aquisições onde as manipulo e as distorço e as tomo, como se coma a vírgula viva de dentro para fora como nas porcas catapultadas no mármore ardo eu deixa-me estar não creias ter levado a mão mais alta, não creias que teres testado a minha ira seja a fuga em frente que o poder da minha ostensiva reparação sobre as hordas de cavaleiros vagos da bolachas e do rosa e do azul, relembrando as velhas vozes do pessimismo da carne pintadas por aquele nomeado como o filósofo donde saiam as larvas e donde caiam os dentes e onde as bestas devoram as estimas e os animais acorrentados pelo contrato que hei-de eu reconhecer há coisas bem mais terríveis que estar só, no sono dos inquietos que buscam a sua negação não te fies em mim para oscular a redenção onde a piedade e o amor devoto foram vociferados aberrantes dum bezerro ciclope.

Do nojo

Um dia acordei esputrefacta
Acreditei que com uma faca e um alicate
Pudesse cortar fora uma perna que não pertencia ali
Acreditei que com uma navalha e uma pinça
Pudesse retirar os seios que não eram dali
Acreditei que com fios de cobre e uma agulhas de crochet
Pudesse re-coser estes bocados de novo no corpo
Mas estava esputrefacta
Eu não sentia nada.
Tudo era pus.
Pus era podre.
Eu era uma gangrena, só cortável não cosível.
Certo é que sabia a razão.
Gostava de me injectar com botulinas vivas,
O simples e o bovino gritavam de patogenicidade,
Gostava de saber que a minha ira cuspia esmegma
O amável e o fóssil destilavam uma certa cropoporfiria
Nada ali era puro.
Puro não era limpo.
Límpido era real.
Real era uma pessoa decantada na dissolução do nojo,
Esse que as pessoas vestem negras por altura da morte.

quinta-feira

La Matter

As palavras-femininas
As âncoras-felinas
Os cantares-fêmea
Os corpos-poema
De mãos dadas o que são?

Um, hum, ano
não é a Humanidade?
um nato oral
não é a Natureza?
um feliz-Sr.contente
não é a Felicidade
um bom-bom
não é a Bondade?

O masculino-selado
Na imanente matéria montado
O feminino-cavalga
Na transcendência substanciado

Demagogias fáceis
Da Repartição das Mentalidades
Instituída por decreto
Da Divisão-Geral das Propriedades

Esta fêmea não quer ser cantada
Por um qualquer tom de Zé
Prefere saber-se e ser contemplada
Não definida pelo é nem pelo não é.

quarta-feira

Eu

Eu vou, eu vou, eu vou, eu vou ser o voo
Eu sou, eu sou, eu sou, eu Soho eu no sonho
Eu tenho, eu tenho, eu tenho, es tanho esta manha
Eu poderia, eu poderia, eu poderia, eu podria ser tamanha
Eu quisesse, eu quisesse, eu quisesse, eu quisesse ser uma outra cor
Eu voaria, eu voaria, eu voaria, eu voaria se eu fosse onde não Iria
Eu estaria, eu estaria, eu estaria, eu histeria se estivesse pia
Eu devo, eu devo, eu devo, eu devo se eu devesse ir vindo
Eu ego, eu ego, eu-ergo, eu-logo, eu-findo.

terça-feira

o barro

E lá vai o barro, nó de argilas:
Se o homem foi feito do barro,
de que foi feita a mulher?

do barro se faz, o barro se lança
o barro quebra, os pedaços muitos
do barro se retira, o barro se molha
o barro se molda, os pedaços fortuitos

da mulher se nasce, a mulher se corre
a mulher que quebra, pedaços incerta
da mulher que solta, a mulher se assusta
a mulher se encarna, os pedaços que liberta

Se eu pudesse responder
afinal, de que é ela feita
teria que saber um tanto de um tudo
despercebendo um pouco de todo o resto
e ai deixaria de saber o que as vísceras me pediam.

segunda-feira

o menino-macho

o menino-macho
faz bichos de 7 cabeças
é um chico buarque sem Holanda
tem uma cabeça de pregos
uma língua de trombetas
uma jangada cheia de pedras
agarra-se às saias da mãe
quando se vê livre
emancipa-se quando se vê
cercado delas
toma o dito por não dito
escreve quadrados
em linhas redondas
acha muito sem saber pouco
e que quanto mais se sabe
mais se ignora, o descampado
não tem tempo a perder
embora ache que anda solto nele
desagrega os quadrantes da carne
achando-se no poder da bactéria
vem com os trópicos cancerosos
num Verão de fogos colocados
ao comando duma qualquer rodela
tirada de um gráfico bioquímico
como se fosse uma ressonância magnética
dos turmores dessas gentes anti-matéria