quarta-feira

Ao amante

Com cheiro de mim nestas letras
Te beijo com as minhas palavras
Não temas a minha ausência
Que só ela manifesta a minha presença
E que esta não vai a lado algum
Que não seja ao teu encontro
Quando e onde seja possível
E que deste possível brota
A nossa coincidência, ela mesma
Tão coerente quanto seca,
E dela se emana a nossa diferença,
Tão presente quanto vibrante,
Como a sublimação do querer
A ideia de ti como a tua matéria
A identidade de nós, os amantes
Serei tua casa se o permitires
Tu, em mim, que já moras e habitas
Com desejo de ti nestas letras
Te tomo e te liberto nas palavras
Me mato e te nasço como Eu própria
Com a propriedade que só amar descreve.

terça-feira

Do outro

No lumiar da teias de fumo busco o som para que possa encontra-te distante robusto na casa dos Sete Pecados aonde nada se atém dizer, inquieto como um gato dando voltas no seu lugar a fim de encontrar a postura do seu descanso, deitada no meu jardim o sol carpindo as costelas ateias ou cristãs destes estendidos seres na contemplação, do nada perfeito e do tudo imperfeito, e ao fundo os sons grilados duma guitarra aborrecida com a vida e a fêmea que canta chorando uns olhos castanhos desse amor perdido e os pêlos em riste como se chorassem suores dum tempo ido mas pouco importa já falar quando o maldito foi suplantando na sua terra-mãe a fim de saber que tudo corre como um rio amarelo e a frescura dum verde brotado cosido nas plantas dos pés, arrematado com pontos de verniz vermelho, se percebe esticando a mão e encontrando as pontas dos teus dedos:

Não temas o medo de ser só
Se nós seus filhos, te acompanhamos
Não temas o desamor de ser dó
Se nós seus pais, te amamos
Não temas o frio de estar distante
Se nós seus avós, te escrevemos
Não temas o rancor de ser semelhante
Se nós seus netos, te devolvemos
Não temas o soro de ser querido
Se nós teus amigos, te buscamos
Não temas o ruído de ser menino
Se nós teus professores, te ensinamos
Não temas o sopro de ser esquecido
Se nós teus discípulos, te lembramos
Não temas o torpor de ser findo
Se nós os vivos, te continuamos
Não temas o medo de ser só
Que de medos sós padecemos.

sábado

Da dexteridade

A besta animal ela mesma bem enquadrada
Reconhece o seu código mas detesta-lhe o uso
Corre move corre sorve chora dó grita sai destrói
Escreve em grifo a fim de devorar o santo mais expedito
Urra as palavras montras do sujo debaixo da plateia dos ogros
Sabe a terracota, furaca-se no susto da espiral de horrores todos
Não dou, não pastas, não caminhas em vale de sombras para alcançares
Mal aproveitados no seu sentido Cão, estésico, hipocrático, sufistado
O meu feno é úmeno, o meu gene é húmido, o meu onte é meu
Não ónus não provo não desejo não experimento não concedo
Ele mesmo bem perdido como pérfido qual rio industrial
Porque eu macumbei a ousada estupidez altérica
Histérica dos aparelhos estereofónicos roídos
Sou destra, mas não reconheço a idade

Que o meu cora só a mim a me pertence, não reconheço legitimidade ao oponente, eu sou o Gine e o pilar em seio das minhas próprias aquisições onde as manipulo e as distorço e as tomo, como se coma a vírgula viva de dentro para fora como nas porcas catapultadas no mármore ardo eu deixa-me estar não creias ter levado a mão mais alta, não creias que teres testado a minha ira seja a fuga em frente que o poder da minha ostensiva reparação sobre as hordas de cavaleiros vagos da bolachas e do rosa e do azul, relembrando as velhas vozes do pessimismo da carne pintadas por aquele nomeado como o filósofo donde saiam as larvas e donde caiam os dentes e onde as bestas devoram as estimas e os animais acorrentados pelo contrato que hei-de eu reconhecer há coisas bem mais terríveis que estar só, no sono dos inquietos que buscam a sua negação não te fies em mim para oscular a redenção onde a piedade e o amor devoto foram vociferados aberrantes dum bezerro ciclope.

Do nojo

Um dia acordei esputrefacta
Acreditei que com uma faca e um alicate
Pudesse cortar fora uma perna que não pertencia ali
Acreditei que com uma navalha e uma pinça
Pudesse retirar os seios que não eram dali
Acreditei que com fios de cobre e uma agulhas de crochet
Pudesse re-coser estes bocados de novo no corpo
Mas estava esputrefacta
Eu não sentia nada.
Tudo era pus.
Pus era podre.
Eu era uma gangrena, só cortável não cosível.
Certo é que sabia a razão.
Gostava de me injectar com botulinas vivas,
O simples e o bovino gritavam de patogenicidade,
Gostava de saber que a minha ira cuspia esmegma
O amável e o fóssil destilavam uma certa cropoporfiria
Nada ali era puro.
Puro não era limpo.
Límpido era real.
Real era uma pessoa decantada na dissolução do nojo,
Esse que as pessoas vestem negras por altura da morte.

quinta-feira

La Matter

As palavras-femininas
As âncoras-felinas
Os cantares-fêmea
Os corpos-poema
De mãos dadas o que são?

Um, hum, ano
não é a Humanidade?
um nato oral
não é a Natureza?
um feliz-Sr.contente
não é a Felicidade
um bom-bom
não é a Bondade?

O masculino-selado
Na imanente matéria montado
O feminino-cavalga
Na transcendência substanciado

Demagogias fáceis
Da Repartição das Mentalidades
Instituída por decreto
Da Divisão-Geral das Propriedades

Esta fêmea não quer ser cantada
Por um qualquer tom de Zé
Prefere saber-se e ser contemplada
Não definida pelo é nem pelo não é.

quarta-feira

Eu

Eu vou, eu vou, eu vou, eu vou ser o voo
Eu sou, eu sou, eu sou, eu Soho eu no sonho
Eu tenho, eu tenho, eu tenho, es tanho esta manha
Eu poderia, eu poderia, eu poderia, eu podria ser tamanha
Eu quisesse, eu quisesse, eu quisesse, eu quisesse ser uma outra cor
Eu voaria, eu voaria, eu voaria, eu voaria se eu fosse onde não Iria
Eu estaria, eu estaria, eu estaria, eu histeria se estivesse pia
Eu devo, eu devo, eu devo, eu devo se eu devesse ir vindo
Eu ego, eu ego, eu-ergo, eu-logo, eu-findo.

terça-feira

o barro

E lá vai o barro, nó de argilas:
Se o homem foi feito do barro,
de que foi feita a mulher?

do barro se faz, o barro se lança
o barro quebra, os pedaços muitos
do barro se retira, o barro se molha
o barro se molda, os pedaços fortuitos

da mulher se nasce, a mulher se corre
a mulher que quebra, pedaços incerta
da mulher que solta, a mulher se assusta
a mulher se encarna, os pedaços que liberta

Se eu pudesse responder
afinal, de que é ela feita
teria que saber um tanto de um tudo
despercebendo um pouco de todo o resto
e ai deixaria de saber o que as vísceras me pediam.

segunda-feira

o menino-macho

o menino-macho
faz bichos de 7 cabeças
é um chico buarque sem Holanda
tem uma cabeça de pregos
uma língua de trombetas
uma jangada cheia de pedras
agarra-se às saias da mãe
quando se vê livre
emancipa-se quando se vê
cercado delas
toma o dito por não dito
escreve quadrados
em linhas redondas
acha muito sem saber pouco
e que quanto mais se sabe
mais se ignora, o descampado
não tem tempo a perder
embora ache que anda solto nele
desagrega os quadrantes da carne
achando-se no poder da bactéria
vem com os trópicos cancerosos
num Verão de fogos colocados
ao comando duma qualquer rodela
tirada de um gráfico bioquímico
como se fosse uma ressonância magnética
dos turmores dessas gentes anti-matéria

sábado

Da Técnica

A técnica
Como sublimar o Outro?
Perguntavam-se todos
Pelos tempos idos…
Se no tempo presente
Só me fragmenta
A intemporalidade
Do corrido, escapando-me
Ou bem me convoca
Submetendo-me ao seu
Escrutínio
Designando-me para absorver-me
No seu domínio
Usando o seu Pródigo
Para me definir
Excluindo-me
Das partes, sobrantes
Apontando-me a excomungar
Envagetando-me para me cercar
Na ordinária comunidade
De tudo o que não é especial
Ou bem me arremata
Como se esse Código
Fosse universalmente
Uno, remetendo-me
À implicação conrtinada
Do meu simples encaixe
Como se especificar-me
Numa sua categoria
Bastasse
E se na sua parca etiologia
Não fosse desvanecer-me
A minha mais requerida
Existência
Ou bem me joga fora
Quando os Códigos
E as Espécies misturados
Se forem com as poeira
Mas aí serei eu, bem sei
O mal do seus pecados
Serei a anti-ética
Desse seu telos
Mal estendido no chão
O Bárbaro
Que você gosta de lutar
O marginal
Que você é o epicentro
O doente
Que você gosta de curar
O rasca
Que você gosta de empinar
Como sublimar o Outro?
Responderam todos
Pela Técnica!
E a moderada idade que
Vive no passado
Temendo futuro
Malandro, Preguiçoso e Vilão
Na esteira da auto-geração
Padres, Médicos e Heróis
Sintetizando me na temporalidade
Escorrida capa do Eu

sexta-feira

A Comunicação

Dizer o óbvio nem sempre é fácil
Se a perfeição se torna sua inimiga

Dizer o óbvio nem sempre é tácito
Se a paranóia lhe faz uma intriga

Dizer o óbvio nem sempre é mau
Se a epifania lhe der uma solução

Dizer o óbvio nem sempre é bom
Se a plateia vem em contra-mão

Dizer o óbvio nem sempre é óbvio
Se falar hoje em dia é uma comunicação.

A Foucault

Ler alguém é:
Um exercício simples?
Permite-nos dividir
Garante-NOS
Porque é a mesmíssima
Leitura do EU
Escrever alguém é:
Um exercício complexo?
Permite-nos multiplicar
Exige-nos a criação
Uma Escritura
Ler alguém no que se
Escreve
Ou
Escrever alguém no que se

É dar e tirar a vida num só acto
É poder e saber num só instante
Ser homem livre e governar como deus
É observar neste plano de imanência
A soberania do ser-outro
É o jogo dos ousados
Numa província de medos
A raiz do amor em si mesmo
É sujeitar-se obedecendo
É objectar desobedecendo
É o reflexo sufixado do eu-só

terça-feira

bicho-da-seda

estiquei o olho para fora
do casulo para ver
se via o bicho-torrão
o mau da fita´
tinha-me dado um extorsão muscular...
nas distrofias dos ardores
não nos devemos deixar
arrastar como uma mera lagarta
quando estávamos na fábrica
da seda ao lado das vitrines
de cogumelos do Vietname
tínhamos aulas kantianas
"A fundamentação metafísica das minhoquices"
centenas e centenas de anos
a resistir aos maoísmos virulentos
ensinaram-nos a desprezar
as calúnias infundadas
"Não me metas minhocas na cabeça"
associação excomungada das larvas
na carola morta de alguém
pois que na malvada
prossegue a vida
o bicho explorado
dá seda
e seu casulo é comestível
mesmo lá longe
nas terras dum Apocalipse

sábado

meu querido diário

neste diário não deixo os factos, deixo os relatos:
vou-me na epifania
deixo a maresia
vou nas palavras
deixo as amarras
vou-me no sono
deixo o tomo
vou-me vazia
deixo a Sofia
vou-me na Ângela
não rimo com nada

tanto tempo a tentar esquecer
dei por mim a não lembrar mais
a achar que não tinha por nada
o que o dado esquecido teve
nas gavetas da prateleira
primeira divisão da esquadra
direita da escrivaninha ABC
não tinha nada

encontrei algo
quando se encontra algo é
como montar as cavalitas do avô
como usar saias brancas de pintas vermelhas
como ir aos repuxos de água do jardim bebendo sôfregos
como lembrar os romances esquecidos da bonecas de trapos
como lembrar as brincadeiras de neve e as dos comboios esmagando moedas
lançando foguetes em carris

é como lembrar isto tudo
se esta fosse a exacta verdade
que
se esta fora então
teria de dizer que é como
lembrar o avô louco de Alzheimer
senhor alemão que fugiu do hospício pinhal afora
e a avó partindo lhe a cadeira na cabeça
seria lembrar perder as pernas nas brincadeiras estúpidas
fugindo dos comboios em pontes metálicas
seria como lembrar as amigas e amigos
com quem nunca mais queremos falar
seria lembrar que queríamos mesmo esquecer

mas a poesia foi feita para:
tratar as epifanias.
não para fazer as terapias
porque se assim fosse
ninguém quereria ouvir-me
eu teria de pagar ao público
para cuidar de mim
assim descuidam-me de outra forma
mortalizando os meus relatos
porque ao diário não deixo factos

tanto tempo levei a tentar esquecer
que agora já não consigo lembrar

Pessoa

Por falar em Francês
Vi a pessoa que entrou
Seu vinagrette desamarelado
Verbavando Seu Rimbaud

Por falar em Francês
Vi une pessoa re-alaranjada
Sua Cointreau imperial
Parecia bem-apeçonhada

Por falar em Francês
Vi a pessoa que matou
Seu aspirador-projéctil
Poésie à la cozinha Artaud

Por falar na pessoa
Vi um francês no plateau
Pegando a Poésie-ventríloca
Foi ele que personne matou.

quarta-feira

Terra do Antes

Lá na terra do antes
O amarelo formava o pano de contra-mão
Lá na terra do antes
Os terraços afundavam sem ver o furacão
Lá na terra do antes
Os pedaços de ninguém eram logo do chão
Lá na terra do antes
Os amassos eram mercados de doce mamão
Lá na terra do antes
As galinhas comiam caviar mingau de pão
Lá na terra do antes
O depois foi surrado e morto pelo Então
Lá na terra do antes
Tudo desmoronava se tomava sim com não

navegando à distância

Navio naufragado do amor
Não parte é glória quente
Os peixes brotavam do mar
Como fios de coral da serpente
Oh sereia do mar: meu canto
Teceu sua roupa mais íntima
Como teceria a pele carnuda
Deste pulsante coração
Quem me vem desgovernado
Sem medida para amamentar
As bocas da vida dos amantes
Toda as tropas de luar
Por todos se fazem querer
Me fazem querer andar
Sem dizer aos informantes
Este é meu naufragar

terça-feira

Do lugar

Vai para um lugar
Onde a largura supere o comprimento
E os cumprimentos todos
Eles desnecessários
Superem a altura dos teus contrários
E onde os contrariados
Todos eles necessários
Superem a profundidade dos seus cenários
E onde os cénicos desprovidos de contexto
Superem os santos dos seus relicários
E onde as relíquias com seu pretexto
Alcancem os seus deuses
Dos seus próprios imaginários
Vai para um lugar
Onde não estejas.
Sejas.

A estocástica ficção duma polpa de tomate

E a polpa perguntou:
se o cano for canónico,
a cona é cónica?
Logo
o coma é cómico
logo
a cola é cólica
logo
é lógico?
Ele é trigo
Joio de vivre
Crónica de Portugal
(des) composto
Nome começamos por D
Todos em Linha
Canetas Roxas
Unhas avermelhadas
Duas riscas de luz
7 tiros na Torre
Uma grande avestruz
Mostarda
No sofá
No banco
Na mesa na cadeira
Esparguete com camarão
E a polpa de tomate?
A noite foi dura
Morte de Jane Grey
Tarântula criatura do Lago
- Get Carter -
Massys, Vermeer, Delaroche
I coca so cógita
“Padeceu de paixão ilíaca”
Se eu me vier
Logo vómito
L’Elixir du Mont St. Michel
Le Rhum St. Christophe
La Route de Saint Gapour
E polpa de tomate?
Não se aceite da mãe
A lata da Deeta
Pérola e cigarros
- Revival nights -
AF Inc.
Numa fábrica escondida
Em qualquer Texas
A fachada é a indústria
Duma Polpa de tomate

Da condição

Se a flecha da vida em nada te satisfaz
Se o moinho da Boémia água cereal traz
Se a inércia da física a nada te conduz
Se a ânsia paragem o dilema te seduz
Se no lume molhado a chama descende
Se no vértigo desmoído o fio se desprende
Se da carroça desgovernada o boi não se retarda
Se no baixo insonor a palheta não se agarra
Se o credo do trabalho ao aro não acorre
Se no caderno diário o roto nada foge
Se o andar condicionado na rua não fica
Se a tua vida em nada pratica
É porque o nada com nada se desfaz
Espera!
Eventualmente morrerás.

Tic-tac c'est tactique

Oh Tic-tac:
You make so táctil

Onde estava o tempo
Quando a hora veio embora
Quanta flor-de-minuto
Se este espinho me demora
Quanto pau dessa arara
Voa na linha de prata
Onde estava o espaço
Quando o tempo veio agora
Quanta espada-meto-à-cinta
Se essa régua me esfola
Quando a coça dessa vara
Espalha o sangue da lata
Onde foi o relógio da rosa
Dos ventos da mata
Tic-tac chicote de tempo
Erva daninha brota do cio
Tic-tac do gato-grilo
Palha suja baixo o mio
Tic-atc unhas na carne
Som desgarrado no frio
Tica-tac de neve caindo
Lago segundo de arrepio
Onde estava o anel desflorado,
Quando o tempo me largou no altar?
Quanta era o broto de laranjeira,
Onde a inocência me deixou escapar?
Se o tempo e o lugar
Fogem em dois tempos e em três passos
Vai por aí
Como quem vai
No outro tempo do outro lugar
...
Eles me fazem
Tactique